quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Escrever é a única forma de calar as vozes de dentro da minha cabeça.

domingo, 18 de setembro de 2011

Tá entendendo?

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Vou te contar, cara, mas você tem que prestar atenção, mas eu quero atenção mesmo, tá ouvindo? Olha, o negócio é você separar as pessoas, não é difícil, é só olhar pra alguém e separar tudo de ruim e de bom. Todos nós temos tudo de ruim e de bom. Você tá entendendo? – e ele ficava assim, neste “você tá entendendo?”, como se eu fosse muito burro pra não entender o que ele queria me passar, ou repetindo “tá me ouvindo?” como se eu fosse surdo, gesticulava com as mãos, sua camisa branca suava, o suor fazia seu rosto brilhar – Daí você vai e se aproxima das pessoas que acha que valem a pena, vai e se dá bem com elas, vê se vocês têm os mesmos gostos e começa a curtir a vida, conversa, bebe, transa, dança, noites sem dormir, dias dormindo, e por aí vai... só que aí tem um problema: quando você se aproxima, tudo começa a feder, acontece que as coisas ruins começam a se mostrar, acontece que a intimidade permite que se mostre o veneno, a parte amarga de cada pessoa, tem gente que aguenta, já tem gente que larga tudo e parte pra próxima, daí começa tudo de novo, se aproxima de alguém “bom” e “bacana” – mas que vai feder tudo de novo, tá me ouvindo, porra? – sempre quando ele dizia “porra” me dava um soco no estômago, tremendo filha da puta – cara, você tem que dar um jeito nessas vozes que tá ouvindo antes que fique doido de vez, eu tô aqui falando e falando e falando coisas da vida e você tá aí... não tá? Tá entendendo? – eu odeio quando ele fala das vozes que escuto como desculpa pra me socar ou falar que não tô ouvindo, ele sabe da minha mania de não olhar na cara das pessoas quando elas falam demais, é automático, e já expliquei isto mil vezes, merda – então, quando achar alguém que comece a te mostrar seu lado podre, fique com ela, pelo menos ela é sincera, cara, é foda achar alguém sincero nesta bosta, e você sabe disso, e agora eu tô sendo sincero com você, tá ouvindo? – as vozes começam a gritar dentro de mim, aperto as mãos, mordo os lábios, merda-merda-merda – preciso saber se você tá me entendendo! Porque quem fede, meu amigo, quem fede é quem possui luz. E luz é tudo nesta vida. Essa vida é apenas um espaço vazio, não-não-não, você não olhando na cara acabo me distraindo, a vida é apenas dois nadas, um antes e outro depois, saca? Tô esperando meu segundo “nada” chegar, vai ser ótimo... mas, aqui, quando achar alguém que te mostre o lado podre com toda sinceridade que cabe numa pessoa, lá do íntimo da alma, você precisa agarrá-la e não deixar ela fugir NUNCA! Ouviu? Eu disse nunca! Acontece que nem todos aguentam – “você vai falar de mim pra ele?” Não. Merda. Quero ouvi-lo, fique quieta... “Mas eu não concordo com o que ele diz! Ficar com gente podre? Até parece!” Vozes desgraçadas! – olha, sei que é difícil, mas passa, nem todos aguentam lidar com o podre, tem gente que prefere sempre o lado limpo, mas fique com o podre sincero e deixe de lado o positivo cretino, no final, você vai me entender, já perdi tempo demais com pessoas que se mostravam boas, daí me fodi por me deparar com verdadeiros cretinos, enquanto aqueles que se mostravam sempre podres, continuavam podres, podres e sinceros, é como se a podridão, afinal, fosse limpa! – “vai, quero saber afinal o que é esse podre”, tá bom, porra, vou perguntar – esse podre? Esse podre é o que a pessoa guarda lá no fundo da alma, onde só ela alcança, todo mundo tem algo que se envergonhe, este é o podre da pessoa, o nosso interior é repleto de escuridão, o podre é a morada do inferno dentro da pessoa, entende? Se alguém te mostra isto, por que fugir? Você me mostrou seu lado podre: estas vozes que tanto te perturbam um dia vão te matar, você – “eu vou te matar? Este cara é um idiota!” sei que vocês não vão me matar, agora, fica quieta! – sabe muito bem disto que tô falando, né? A vida é boa, cara, você tem que começar a curtir e não dar bola pra essas vozes que um dia elas param – “não vou parar”, tá, sei disso – e quando isso acontecer quero ser o primeiro a saber, viu? A vida é questão de olhar, sempre há podre e um pouco de limpeza em cada pessoa, entende? Tá me ouvindo? É tudo questão de olhar, se você quiser ver o podre, verá o podre, se quiser ver o lado bom, verá o lado bom, mas tente se lembrar sempre que se procurar luz no abismo, certamente é um pouco de você mesmo que irá encontrar... tá entendendo?

Y.

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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Editors

Editors
Música: An End Has A Start


"I don't think that it's
Gonna rain again today
There's a devil at your side
But an angel on her way"






Uma das minhas bandas favoritas da atualidade...
Discos podem ser baixados aqui: http://ceradofone.blogspot.com/search/label/Editors

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quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Caio Fernando de Abreu

Preciso de Alguém...

Meu nome é Caio F.

Moro no segundo andar,mas nunca encontrei você na escada

Preciso de alguém, e é tão urgente o que digo. Perdoem excessivas, obscenas carências, pieguices, subjetivismos, mas preciso tanto e tanto. Perdoem a bandeira desfraldada, mas é assim que as coisas são-estão dentro-fora de mim: secas. Tão só nesta hora tardia - eu, patético detrito pós-moderno com resquícios de Werther e farrapos de versos de Jim Morrison, Abaporu heavy-metal -, só sei falar dessas ausências que ressecam as palmas das mãos de carícias não dadas.

Preciso de alguém que tenha ouvidos para ouvir, porque são tantas histórias a contar. Que tenha boca para, porque são tantas histórias para ouvir, meu amor. E um grande silêncio desnecessário de palavras. Para ficar ao lado, cúmplice, dividindo o astral, o ritmo, a over, a libido, a percepção da terra, do ar, do fogo, da água, nesta saudável vontade insana de viver. Preciso de alguém que eu possa estender a mão devagar sobre a mesa para tocar a mão quente do outro lado e sentir uma resposta como - eu estou aqui, eu te toco também. Sou o bicho humano que habita a concha ao lado da conha que você habita, e da qual te salvo, meu amor, apenas porque te estendo a minha mão. (...)

Tenho urgência de ti, meu amor. Para me salvar da lama movediça de mim mesmo. Para me tocar, para me tocar e no toque me salvar. Preciso ter certeza que inventar nosso encontro sempre foi pura intuição, não mera loucura. Ah, imenso amor desconhecido. Para não morrer de sede, preciso de você agora, antes destas palavras todas cairem no abismo dos jornais não lidos ou jogados sem piedade no lixo. Do sonho, do engano, da possível treva e também da luz, do jogo, do embuste: preciso de você para dizer eu te amo outra e outra vez. Como se fosse possível, como se fosse verdade, como se fosse ontem e amanhã.

(Caio Fernando Abreu - Crônica publicada no “Estadão” Caderno 2 de 29/07/87)

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Rui Nunes

“Não tenho paciência para ouvir os outros, não tenho paciência para viver, não tenho paciência para morrer, estou aqui, parada, num desequilíbrio interminável, nunca mais acabo de cair, irrito-me se me falam, sofro se me não dizem nada, odeio o gesto caridoso: a mão de alguém nos meus cabelos, o que eu quero é uma voz que me queira, um momento de descanso nessa voz.”

Rui Nunes

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Lima Barreto

“Desde menino, eu tenho a mania do suicídio. Aos sete anos, logo depois da morte de minha mãe, quando eu fui acusado injustamente de furto, tive vontade de me matar. Foi desde essa época que eu senti a injustiça da vida, a dor que ela envolve, a incompreensão da minha delicadeza, do meu natural doce e terno; e daí também comecei a respeitar supersticiosamente a honestidade, de modo que as minhas cousas me parecem grandes crimes e eu fico abalado e sacolejante. (...) Hoje, quando essa vontade me vem, já não é o sentimento da minha inteligência que me impede de consumar o ato: é o hábito de viver, é a covardia, é a minha natureza débil e esperançada”

* Lima Barreto, in “Um Longo Sonho do Futuro”, Ed. Graphia, Rio de Janeiro – 1993.

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quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Depeche Mode - "Wrong" (official music video)

"Depeche Mode" perform their new song "Wrong" at the Echo Awards in Berlin, Germany




Depeche Mode - "Wrong"
from the album "Sounds Of The Universe"
Released April 20th, 2009 (UK), April 21st, 2009 (USA)

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quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Concurso da Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura de Porto Alegre

SELECIONADOS: CONCURSO HISTÓRIAS DE TRABALHO 2009

CATEGORIA - HISTÓRIAS INVENTADAS

ELIAS ANTUNES SEM TRABALHO
RAFAEL REGINATO MOURA OS OLHOS DE MIRÓ
RAFAEL REGINATO MOURA DIREITO, ESQUERDO
MARCELO GREJIU CAJUI O MASSACRE DA RUA SETE
JOSÉ CARLOS DOS SANTOS O TRECHEIRO
LÍVIA PETRY JAHN FLORES DA COR DA TERRA
JOSÉ CARLOS DA SILVA PROCURA-SE
WILSON GOMES DE OLIVEIRA JR. 10EMPREGADOS
ISTELA MARIS MAINARDI O CONSTRUTOR DE SONHOS
JOÃO MANUEL DA SILVA ROGACIANO O RAMERRAME
VERA LUCIA BARRIONOVO MÉO OVO FRITO
MARIA DA GLÓRIA JESUS DE OLIVEIRA O ACHADO
SOLENO RODRIGUES DE OLIVEIRA CONFUSÃO NO QUARTEL
GUSTAVO DE AZAMBUJA FEIX TIRAR LEITE DE PEDRA
YAN PATRICK BRANDEMBURG SIQUEIRA SONHO INDUSTRIAL
EDSON XAVYER CASTRO AH SEU DOTÔ!
ALVARO MOREIRA DE CARVALHO PATENTE DE AMOR
CLAIRTO MARTIN O DIA DO ASSASSINO
ANA MARIA SEIBERT ESPÍNDOLA OS HOMENS DE PRETO
JOSÉ ROBERTO REVOREDO CASTRO UM URUBU DAS RUAS
ARTUR LOURO PEREIRA O PRIMEIRO ENCONTRO
ANTÔNIO LUIZ ALMADA PRESTES O TITÉIA
EVELIN LIDIANE DOS SANTOS A VITÓRIA DE BRAU
MARIETA FERREIRA BRANDÃO SER MÃE AINDA CRIANÇA
SIMONE ALVES PEDERSEN O SEGREDO DO CARTEIRO

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Editora Temátika

Vencedores do Concurso Temátika 2009:

1- A tocaia - Henrique Bon

2- A longa e exaustiva estadia de M. entre as ferragens- Marcio Nazianzeno

3- Conto Regressivo- Elias Araujo


4- Miso - Yan Siqueira

5- O Homem fiel mito ou realidade- Edna Rubia Facundo

6- Misantropia Infecciosa- Leo Borges

7-Boas velhas que inovo- Gustavo Siqueira

8- A pedra do olho divino- Carlos Barrros

9- Como Saddan tentou ludibriar São Pedro- Dora Oliveira

10 - O Conto- Maycon C. Batestin

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terça-feira, 1 de setembro de 2009

5 Generais entram, Luiza sai...

A banda 5 Generais voltou! \o/

Nova música: Estrela da Morte


Ouça os 5 Generais tocando com Kell Kill, vocalista da Banda Luiza Fria, a música Entre as Aves de Rapina da extinta banda Arte no Escuro.



Bem, e a banda Luiza Fria chega ao fim...

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Um E-mail Sobrenatural - Yan Siqueira

Eis um conto retardado publicado no site do Grupo Scritta que me deu o Quinto Lugar em seu concurso literário. Site: http://www.scrittaonline.com.br/artigos.php?ctd_id=1003

Um E-mail Sobrenatural de Yan Siqueira

Maldita hora em que abri meu e-mail.

Talvez, se tivesse ido dormir depois de um cansativo dia de trabalho, não teria feito. Mas fiz. Não resiste àquela fútil curiosidade de entrar no Orkut, responder recados, fuçar os dos outros, ler as comunidades, postar fotos... Quando vi, perdera a hora. Era tarde e nem meu e-mail havia aberto. Pensei: “Vou só olhar minha caixa de entrada e saio para dormir”. Maldito pensamento esse. Digitei em poucos segundos o endereço da página da web, escrevi minha senha e apertei “entrar”. Deparei-me com um novo e-mail de remetente desconhecido por mim. Intitulava-se Morte e dizia no assunto: “É chegada sua hora: sete horas”.

Como pode? Pensei: “É vírus. Deveria ter ido direto para o lixo eletrônico”. Pensei mais um pouco. Decidi abrir só de curiosidade, mas, claro, certifiquei-me de que o antivírus estava em uso. Sim. Estava. Dei um clique com o mouse, abri o e-mail e li:

“Prezado Abiezer Goulart, em sete horas visitarei sua morada. Roubarei você, tirarei o que há dentro de você, não mais existirás, pois morrerás em sete horas. Eu o matarei em sete horas. Ninguém sobrevive ao meu encontro. Tem sete horas, uma miséria de minutos. Nada mais. Nada menos. Atenciosamente, Senhora Morte”.

De quem poderia ser aquela brincadeira? Pensei. Alguém estava querendo me sacanear. Era óbvio. Deletei o e-mail e fui dormir. Porém, não contaria essa história se ela tivesse terminado assim, de maneira tão simples. Manifestou-se o remetente daquele e-mail em meu sonho. Logo quando me apaguei em pensamentos, senti em meu peito um pesar forte, uma angústia de solidão que há tempos não sentia. Era-me familiar esse sentimento, somente estranho, pois não sentia falta de nada exatamente. Não sei em qual ponto desse delirar caí em sono profundo e em quanto tempo pairei na escuridão da consciência até penetrar mais fundo no poço onírico da mente humana. Mas ouvi uma voz, pensei que viria em meu resgate, não. Não vinha para me salvar. Senti o vento uivando em meu ouvido, ele dizia:

“Como ousa deletar meu e-mail? Fiz de tão bom grado e conciliei-me com essa nova geração do conhecimento. Passam tanto tempo sentados sobre o próprio rabo na tela do computador e, agora, quando a Morte envia-lhe um e-mail com seu parecer de trevas, ignora-me?”

Era uma voz rouca e cansada. Meu coração veio à boca, e ela salivava mentiras:

“Não. Por favor, foi sem querer... Eu não quis ofendê-la...”

“Tem sete horas, Abiezer Goulart. Em sete horas o excluirei deste mundo... Sete... Sete... Sete... Sete... Sete... Sete... Sete...”

Acordei ofegante, quase morri afogado em meu próprio sono. Ela viria, sim, ela viria! Eu não queria morrer... O que fazer? Não. Estava louco? Corri para a tela do computador. Adentrei meu e-mail e lá estava outra mensagem da Morte com o assunto “É chegada sua hora: sete horas”. Abria-a. Li: “Prezado Abiezer Goulart, em sete horas visitarei sua...” Maldição! Era a mesma mensagem.

Pensei em excluí-la. Deveria? O que aconteceria? Seria meu sonho obra do acaso, vínculo e consequência de um ser sem face que me maltratava no escuro? Não pensei mais, excluí aquele e-mail. Fui checar se o outro que acabara de excluir antes de dormir ainda estava para ser totalmente eliminado. Não. Assim como não havia nada na pasta de excluídos, também nada havia na paste de lixo eletrônico.

Céus! Um novo e-mail... O mesmo e-mail! Diabos estão presentes e brincando com minha alma em um purgatório de mentiras! Deletei-o novamente. Nada em lugar nenhum. Surgiu outro... E mais outro e-mail em minha caixa de entrada. Inferno! Estaria meu computador com defeito? Não. Minha internet? Também não.

Demorei a crer no que via e sentia. O mundo, aos poucos, tornava-se opaco e cinza. Tirei meus óculos de grau, sou míope, para limpá-los, mas de nada adiantou. Ainda estava me sentindo envelhecido, os objetos me eram indiferentes, sentia-me vagando por dentro de meu corpo em uma sonolência sem fim. Não mais me identificava como sendo corpo, mas sou dentro do corpo. Sou algo, alguém, talvez uma consciência, ou talvez uma centelha divina que habita dentro de um corpo... Centelha divina? Esses pensamentos não eram meus. Não poderia crer que brotavam de minha mente.

Tinha sete horas para descobrir quem era o farsante travestido de Morte, não queria, por uma razão desconhecida, esperar essa hora chegar. Não sei quanto tempo passei em frente ao computador pensando nessas coisas. Mas amanheceu, não tinha vontade nenhuma de trabalhar, nem de ir aos meus estudos, muito menos de me socializar com os infelizes que me cercam no decorrer do dia. Decidi ficar em casa, afinal, tinha que resolver aquilo... Mas senti fome, então fui ao supermercado. Foi quando aconteceu.

Já disse que minha visão se tornava falha, sim, mas quando saí de casa e fui tocado pelos raios de sol, meus olhos arderam. Minha visão tornou-se turva e evoluiu até alcançar o preto-e-branco. O mundo de cores não mais existia para mim. Senti nojo pelas pessoas, tinha vontade de livrar-me delas.

Cheguei à padaria e pedi uns biscoitos. O estúpido do atendente não me ouviu, eu, sem paciência para lidar com humanos, gritei: “Rapaz, dá para ser ou está difícil?” Nem assim me notou. Bati minha mão com força sobre o balcão, olhando o rapaz no olho. E bati novamente, mais uma vez... Ele nem sequer me viu. Não poderia, eu aos poucos deixava de existir. Olhei para minhas mãos e elas começavam a ficar transparentes. Bati mais uma vez sobre o balcão, mas bati de medo, de pavor, não de raiva. Nada escutei. Tentei tocar o infeliz do atendente e, juro, minha mão o atravessou a cabeça! Ele tremeu como se sentisse frio. Eu realmente me sentia frio, o sangue estancava-se nas partes inferiores de meu corpo. O coração batia em intervalos cada vez menores, mas ainda batia. Foi quando tive um estalo do pensamento! Vou enganá-la, sim, a senhora Morte e seu véu de viúva, vou persuadi-la... Não. Melhor, vou livrar-me dela. Tenho uma ideia em mente e muita coragem fundida ao desespero no peito. De sobra, perdi o resto de minha sanidade.

Voltei para casa, nem abri a porta, a atravessei. Quase não sentia mais meu coração, apenas um peso sobre o peito, como se carregasse um carrasco macabro que, em questão de segundos, aumentava seu próprio peso. Não senti mais medo, ele não mais existia, nada mais existia dentro de mim. Fui em direção ao meu computador, tinha que tocá-lo. Respirei fundo e percebi que o ar não me pertencia.

Concentrei o restígio de existência nas pontas transparentes de meus dedos. Não sei se os tornei rosados como eram, mas consegui tocar o teclado ao ponto de abrir uma página da internet. Restava-me pouco tempo, abri meu e-mail, cerca de duzentas novas notificações haviam chegado. E o número ainda aumentava. Desespero. Sentia a vida partindo de dentro de mim. Abri meu Orkut, sim, ainda tinha tempo, mas era pouco. Abri minhas configurações, li a palavra “geral” seguida de “notificações”, sim, é aqui mesmo. Logo abaixo da palavra “geral” estava escrito: “excluir minha conta do Orkut”. Cliquei! E fiz! Matei-me para o mundo virtual, pronto, bem na sua cara! E antes de você, Senhora Morte! Suicídio virtual! Venci...

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sábado, 1 de agosto de 2009

sábado, 25 de julho de 2009

27 anos - A idade do mito.

Editado recentemente, o livro "The 27s: The Greatest Myth of Rock And Roll", escrito por Eric Segalstada e Josh Hunter, relata todos os grandes nomes do rock e do blues que morreram aos 27 anos de idade. O livro também deixa no ar a pergunta, "por que aos 27 anos?". Coloco aqui alguns nomes dessa lista sinistra.

BRIAN JONES - guitarrista dos Rolling Stones até 1969, o músico era tão talentoso que se dessem um tijolo na mão dele, o cara conseguia tirar um som. O mais bonitinho dos Stones morreu afogado na piscina de sua casa em julho de 1969.

ALAN WILSON - vocalista da banda de blues californiana Canned Heat, foi encontrado morto, vítima de uma overdose de heroína. O músico sofria de depressão e sua morte foi considerada como suicídio, em setembro de 1970.

JIM MORRISON - O vocalista dos Doors foi encontrado morto na banheira de seu apartamento, em Paris, por sua companheira Pamela Courson, no dia 3 de julho de 1971. Os rumores eram de uma overdose acidental.

JIMI HENDRIX - o maior guitarrista de todos os tempos morreu após ingerir nove comprimidos para dormir, asfixiado pelo vômito, durante o sono, em setembro de 1970. Curiosamente ele trabalhava numa nova letra chamada "The Story Of Life Is Quicker Than The Wink Of An Eye" (A história da vida é tão rápida quanto uma piscada de olho).

JANIS JOPLIN - A maravilhosa voz do blues morreu de uma overdose de heroína, possivelmente combinada com os efeitos do álcool, em Outubro de 1970. Dias antes de sua morte, ela gravou uma fita desejando feliz aniversário ao Beatle John Lennon. O tape chegou à casa de John no dia seguinte da morte da cantora.

KURT COBAIN - Ícone na geração grunge, o líder do Nirvana foi encontrado morto em sua casa, em Seattle, por um eletricista, em abril de 1994.

RON MCKERMAN - também conhecido como PigPen, o músico foi um dos fundadores do Grateful Dead, a mais cultuada das bandas californianas desde a década de 60. Alcoólatra assumido, Pigpen morreu de uma hemorragia gastrointestinal em 1973.

PETE HAM - guitarrista e vocalista da banda Badfinger, grupo britânico do país de Gales, que apareceram no final da década de 60, apadrinhados pelos Beatles. Devido a problemas pessoais e financeiros, o músico se enforcou na garagem de sua casa em abril de 1975.

CHRIS BELL - ao lado do músico Alex Chilton, ele liderou o Big Star, uma cultuada banda norte-americana, do início dos anos setenta. Sua morte veio em consequência de uma depressão por sua homossexualidade reprimida e também pelo uso de heroína. Em 27 de dezembro de 1978, seu carro colidiu contra um poste de iluminação e Chris Bell morreu instantaneamente.

D BOON - vocalista norte-americano e guitarrista do trio punk californiano Minutemen. Sua morte trágica aconteceu em 1985, quando foi acidentalmente jogado para fora da Van em que viajava pelo deserto do Arizona (EUA).

PETE DE FREITAS - baterista do Echo & The Bunnymen, banda da cidade de Liverpool, liderada pelo vocalista Ian McCulloch que teve seu auge na década de 80 . Antes de morrer, Pete tinha entrado com um processo contra o vocalista do Echo & The Bunnymen pedindo uma restituição de 15 mil libras pelas pontas de cigarro que Ian McCulloch atirou nele durante todos os anos que ele esteve na banda. O baterista morreu em 1989 em um acidente de moto viajando de Londres para Liverpool.

ROBERT JOHNSON - o enigmático e histórico bluesman, famoso pelo fato de ter vendido sua alma ao demônio numa encruzilhada, morreu em agosto de 1938. A causa de sua morte foi envenenamento, possivelmente pela mulher com a qual ele convivia.

A lista ainda continua com outros nomes menos famosos, porém, todos com uma história dentro da música pop, mas esse é um daqueles assuntos para se "pensar em casa". Qual é a razão dessa coincidência? Todos aos 27 anos de idade. Será que igual a Robert Johnson, todos não teriam feito algum pacto com o demônio? Cruz credo! Vá de retro Satanás!

Sex, 17 Jul, 02h07
Por Kid Vinil, colunista do Yahoo! Brasil

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Crônica de um Amor Louco - [Filme]



Título Original: Storie di ordinaria follia / Tales of Ordinary Madness
País de Origem: Itália / França
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 108 minutos
Ano de Lançamento: 1981
Direção: Marco Ferreri


Crônica de um amor louco é o primeiro dos dois volumes da obra Ereções, ejaculações e exibicionismos, do escritor Charles Bukowski (1920-1994), lançado no Brasil pela L&PM Editora. Baseado nessa obra, o filme "Crônica De Um Amor Louco" é um dos mais elogiados cult-movies dos anos 80. Inspirando-se na vida e na obra do poeta Charles Bukowski, o cineasta Marco Ferreri (A Comilança) criou um filme ousado repleto de erotismo e lirismo. Charles Serking (Ben Gazarra) é um poeta anárquico e beberrão que vive no submundo de Los Angeles, entre prostitutas e marginais. Numa de suas maratonas pelos bares, conhece a linda prostituta Cass (Ornella Muti), com quem inicia um tórrido e trágico romance.

Download do Filme:

Parte 1
Parte 2

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Charles Bukowski - Born Into This (2003)




Formato: Rmvb
Direção: John Dullaghan
Gênero: Documentário
Áudio: Inglês
Legenda: Português
Tamanho: 484 Mb
Duração: 114 Minutos

"O filme relata a vida conturbada de Bukowski começando pela sua infância, passando pelas décadas de pobreza e alcoolismo, numerosos subempregos e relacionamentos turbulentos, os 14 anos trabalhando nos correios, e seu reconhecimento internacional como poeta e escritor."

Donwload do filme:
Parte 1
Parte 2
Parte 3

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Charles Bukowski




Charles Bukowski é conhecido pela sua vida errante, bebia em excesso e escrevia alucinadamente. Os produtos destas noites e mais noites de trabalho eram enviados para as mais diversas publicações literárias independentes dos Estados Unidos, mas quase sempre recusados. Repulsa, nojo, ódio, amor, paixão e melancolia. Esses são alguns dos sentimentos que mais inspiraram Charles Bukowski, alemão que passou a vida nos becos dos Estados Unidos, na composição de toda sua obra. Cada poesia, cada romance e cada conto do escritor traz um pouco da vida do "Velho Safado", como ficou conhecido no mundo inteiro.Dono de um talento nato, o poeta usava a simplicidade e a singularidade dos fatos mais rotineiros e transformava o cotidiano em obra de arte. Inconformado e, sempre, com uma garrafa na mão, ele sentava em sua antiga máquina de escrever e, com uma sutileza surpreendente, deixava fluir seus pensamentos sem censura alguma. Bukowski vivia em um mundo atormentado e distorcido, totalmente fora dos padrões impostos pela sociedade de sua época. O escritor nunca fez questão de esconder que seus trabalhos eram, quase sempre, autobiográficos. E sua falta de discrição era tão grande, que durante toda vida teve de lidar com a quebra de laços de amizade. Ele citava, sem qualquer preocupação, nomes e, quando muito inspirado, fazia duras críticas às pessoas que o cercavam. Algumas vezes os personagens "nada fictícios" ficavam sabendo das peripécias do poeta bêbado após a publicação dos textos.

Link para download de seus livros:
Charles Bukowski

sábado, 11 de julho de 2009

Os Sofrimentos do Jovem Werther - Goethe



A obra Os Sofrimentos do Jovem Werther, do escritor alemão Johan Wolfgang Von Goethe, lançada em 1774, é hoje considerada um clássico da literatura universal. Primeira produção literária do Romantismo, ela é considerada o sinal inicial que indicia o princípio deste movimento cultural. Provavelmente de caráter autobiográfico, este romance caracteriza-se por seu teor epistolar, pois se trata da reprodução de cartas que o Jovem Werther teria escrito ao narrador, no caso, o amigo Wilhelm que é o suposto destinatário das cartas. A obra, narrada na primeira pessoa, com economia de personagens, tem em suas notas de rodapé a indicação de que nomes e locais foram substituídos por dados fictícios, o que contribui para que se acredite na transposição das emoções e sofrimentos do próprio autor para as páginas deste livro, apenas com algumas modificações, principalmente no final. A narrativa de Goethe é tão intensa que, na época, muitos suicídios juvenis ocorreram por todo o continente europeu, levando alguns governantes a tentarem até mesmo censurar a leitura deste livro. Os sofrimentos do Jovem Werther é uma obra avassaladora, uma confissão de um coração apaixonado por um amor não correspondido que somente encontra uma solução para a resolução desse conflito...


Trecho do livro:

Maio, 22

A vida humana não passa de um sonho. Mais de uma pessoa já pensou nisso. Pois essa impressão também me acompanha por toda a parte. Quando vejo os estreitos limites onde se acham encerradas as faculdades ativas e investigadoras do homem, e como todo o nosso trabalho visa apenas a satisfazer nossas necessidades, as quais, por sua vez, não têm outro objetivo senão prolongar nossa mesquinha existência; quando verifico que o nosso espírito só pode encontrar tranqüilidade, quanto a certos pontos das nossas pesquisas, por meio de uma resignação povoada de sonhos, como um presidiário que adornasse de figuras multicoloridas e luminosas perspectivas as paredes da sua cela... tudo isso, Wilhelm, me faz emudecer. Concentro-me e encontro um mundo em mim mesmo! Mas, também aí, é um mundo de pressentimentos e desejos obscuros e não de imagens nítidas e forças vivas. Tudo flutua vagamente nos meus sentidos, e assim, sorrindo e sonhando, prossigo na minha viagem através do mundo.

As crianças - todos os pedagogos eruditos estão de acordo a este respeito - não sabem a razão daquilo que desejam; também os adultos, da mesma forma que as crianças, caminham vacilantes e ao acaso sobre a terra, ignorando, tanto quanto elas, de onde vêm e para onde vão. Não avançam nunca segundo uma orientação segura; deixam-se governar, como as crianças, por meio de biscoitos, pedaços de bolo e ameaças. E, como agem por essa forma, inconscientemente, parece-me, que se acham subordinados à vida dos sentidos.

Concordo com você (porque já sei que você vai contraditar-me) que os mais felizes são precisamente aqueles que vivem, dia a dia, como as crianças, passeando, despindo e vestindo as suas bonecas; aqueles que rondam, respeitosos, em torno da gaveta onde a mãe guardou os bombons, e quando conseguem agarrar, enfim, as gulodices cobiçadas, devoram-nas com sofreguidão e gritam: “Quero mais!” Eis a gente feliz! Também é feliz a gente que, emprestando nomes pomposos às suas mesquinhas ocupações, e até às suas paixões, conseguem fazê-las passar por gigantescos empreendimentos destinados à salvação e prosperidade do gênero humano. Tanto melhor para os que são assim! Mas aquele que humildemente reconhece o resultado final de todas as coisas, vendo de um lado como o burguês facilmente arranja o seu pequeno jardim e dele faz um paraíso, e, de outro, como o miserável, arfando sob seu fardo, segue o seu caminho sem revoltar-se, mas aspirando todos, do mesmo modo, a enxergar ainda por um minuto a luz do sol... sim, quem isso observa à margem permanece tranqüilo. Também este se representa a seu modo um universo que tira de si mesmo, e também é feliz porque é homem. E, assim, quaisquer que sejam os obstáculos que dificultem seus passos, guarda sempre no coração o doce sentimento de que é livre e poderá, quando quiser, sair da sua prisão.



Download do livro "Os Sofrimentos do Jovem Werther"

terça-feira, 7 de julho de 2009

Under the Southern Sun - Brasil



The Chronology of post punk, gothic rock and modern darkwave in Brazil.


Volume 1

1- agentss - cidade industrial (1983)
2- escola de escândalo - luzes (1985)
3- smack - sete nomes (1986)
4- muzak seu coração (1986)
5- ethiopia - minha vida em tuas mãos (1986)
6- o último número - animal sentimental (1986)
7- finis africae - armadilha (1986)
8- cabine c - lágrimas (1986)
9- harry - caos (1986)
10- 5 generais - pássaros negros [ao vivo] (1987)
11- kafka - valsa do medo (1987)
12- arte no escuro - beije me cowboy (1987)
13- violeta de outono - dia eterno (1987)
14- pompas fúnebres - ulaluma (1990)
15- ocaso - somniun (1994)
16- silverblood - valsa da lua (dança para outra gravidade) (1994)

Download - Volume 1

Volume 2

17- lupercais - espectros (1995)
18- back long arch - muteblast (1996)
19- labia minora - corte (1996)
20- der kalte stern - silent garden (1997)
21- chants of maledicta - mournfulness (1997)
22- das projekt der krummen mauern - after dark (1998)
23- stale bread - broken chains (1999)
24- sleepless - the city on fire(2000)
25- modus operandi - acid ent (2000)
26- elegia - the typhoon eye (2000)
27- the tears of blood - never be the same (2000)
28- almas mortas - a videira da morte (2001)
29- luz de velas - necrópole (2001)
30- vesuvia - rosalia (2002)
31- mercyland - só (2002)
32- individual industry - key of dreams (2003)

Download - Volume 2

Volume 3

33- últimos versos - a máscara e o medo (2003)
34- rosa dos ventos - a dança dos invencíveis (2003)
35- projeto reinfield - her shadow (2003)
36- a banda invisível - a musica invisível (2004))
37- zigurate - despertar (2004)
38- vultos – o colecionador de lembranças (2004)
39- scarlet leaves - absinthe tears (2005)
40- the anorexic juliet - valentine´s dance (2005)
41- bels of soul - the ghost of castle (2005)
42- sensivel elite branca - espelhos (2005)
43- x-devotion - love me or hate me(2006)
44- plastique noir - empty streets (2006)
45- days are nights - dançando em meio a guerra (2006)
46- gargula valzer - an angel between the sun and earth (2006)
47- jardim do silencio - solitário (2007)
48- escarlatina obsessiva - winter(2007)

Download - Volume 3

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Gothic - (novo link)



"Em 1816, o poeta Percy Sheller, visita seu amigo Lord Byron, também poeta, que vive auto-exilado na Suíça. Shelley leva consigo sua mulher Mary Godwin e a cunhada Claire. Byron incita os visitantes cultos a experimetarem a imaginação, estimulada por histórias de horror, a prática do amor livre e cultos que desafiam as amarras religiosas e os maiores temores de cada um. Gothic é um sedutor e fascinante estudo sobre a criação de dois grandes mitos da cultura popular: o vampiro e o Frankenstein."

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Parte 1
Parte 2
Parte 3

segunda-feira, 29 de junho de 2009

O Uívo e o silêncio - Escrito por Paulo Leminski



O Uívo e o silêncio

A poesia "beat" é uma vanguarda?

Se considerarmos o Uivo (Howl) de Ginsberg (1956) como uma espécie de manifesto (manusgrito, obgesto) da poesia "beat", ela é praticamente contemporânea da Poesia Concreta brasileira, cujo Plano Piloto é exatamente de 1958.

No Brasil, em 1956, Décio Pignatari fazia "Terra", Haroldo de Campos dava à luz seu "SI LEN CIO" e Augusto de Campos compunha "Tensão". Nunca os astros de Estados Unidos e Brasil estiveram em tão rigorosa oposição.

Lá, a vanguarda, representada por um Ginsberg, um Ferlinghetti, um Corso, passava-se numa pauta oral. Aqui, a vanguarda concreta representava, sobretudo, uma radicalização da dimensão visual da poesia. A poesia concreta é o "poster", o "out-door", os anúncios luminosos, e, hoje, o vídeo-texto. A poesia "beat" é o recital, o poema feito para ser falado, caudalosas torrentes esperando uma voz. Duas poesias, duas vanguardas: duas mídias distintas. Outras coisas, ainda, distinguem as duas.

A poesia "beat" é indissolúvel de um gesto comportamental, que foi a vida "beatnik", da qual é a legítima expressão lírica. A poesia concreta brasileira resultou de um trabalho intelectual, realizado, com alta ênfase na racionalidade, nas fronteiras entre a arte e a ciência. Uma textosignovisão global. E produziu sua própria teoria, a reflexão sobre si mesma, o aprofundamento do ser-poesia, enquanto signo, enquanto código, enquanto matéria e consciência de linguagem. Já a poesia "beat", pela própria natureza da sua proposta, não poderia produzir teóricos nem ensaístas. E seu alcance e abrangência intelectual é, necessariamente, menor do que a da poesia concreta brasileira, sua contemporânea. A título de paradoxo, daria para constatar que, nesse momento, a poesia norte-americana buscava o que o Brasil, país de analfabetos, tem de sobra, a oralidade. E o Brasil, ao contrário, no setor mais radical da sua poesia, buscava aquilo que a civilização tecnológica norte-americana produzia de mais vivo, na área de comunicação de massas. Estranhas inversões, destinos cruzados.

Com tudo isso, a poesia "beat" produziu, sim, poetas e poemas de primeira qualidade. Ginsberg, Ferlinghetti e Corso são vozes que, enquanto a alma humana tiver ouvidos para "a voz que é grande dentro da gente", não vai faltar amor pra eles.

Por Paulo Leminski, do livro Anseios Crípticos
Editora Criar, 2001