terça-feira, 25 de agosto de 2009

Um E-mail Sobrenatural - Yan Siqueira

Eis um conto retardado publicado no site do Grupo Scritta que me deu o Quinto Lugar em seu concurso literário. Site: http://www.scrittaonline.com.br/artigos.php?ctd_id=1003

Um E-mail Sobrenatural de Yan Siqueira

Maldita hora em que abri meu e-mail.

Talvez, se tivesse ido dormir depois de um cansativo dia de trabalho, não teria feito. Mas fiz. Não resiste àquela fútil curiosidade de entrar no Orkut, responder recados, fuçar os dos outros, ler as comunidades, postar fotos... Quando vi, perdera a hora. Era tarde e nem meu e-mail havia aberto. Pensei: “Vou só olhar minha caixa de entrada e saio para dormir”. Maldito pensamento esse. Digitei em poucos segundos o endereço da página da web, escrevi minha senha e apertei “entrar”. Deparei-me com um novo e-mail de remetente desconhecido por mim. Intitulava-se Morte e dizia no assunto: “É chegada sua hora: sete horas”.

Como pode? Pensei: “É vírus. Deveria ter ido direto para o lixo eletrônico”. Pensei mais um pouco. Decidi abrir só de curiosidade, mas, claro, certifiquei-me de que o antivírus estava em uso. Sim. Estava. Dei um clique com o mouse, abri o e-mail e li:

“Prezado Abiezer Goulart, em sete horas visitarei sua morada. Roubarei você, tirarei o que há dentro de você, não mais existirás, pois morrerás em sete horas. Eu o matarei em sete horas. Ninguém sobrevive ao meu encontro. Tem sete horas, uma miséria de minutos. Nada mais. Nada menos. Atenciosamente, Senhora Morte”.

De quem poderia ser aquela brincadeira? Pensei. Alguém estava querendo me sacanear. Era óbvio. Deletei o e-mail e fui dormir. Porém, não contaria essa história se ela tivesse terminado assim, de maneira tão simples. Manifestou-se o remetente daquele e-mail em meu sonho. Logo quando me apaguei em pensamentos, senti em meu peito um pesar forte, uma angústia de solidão que há tempos não sentia. Era-me familiar esse sentimento, somente estranho, pois não sentia falta de nada exatamente. Não sei em qual ponto desse delirar caí em sono profundo e em quanto tempo pairei na escuridão da consciência até penetrar mais fundo no poço onírico da mente humana. Mas ouvi uma voz, pensei que viria em meu resgate, não. Não vinha para me salvar. Senti o vento uivando em meu ouvido, ele dizia:

“Como ousa deletar meu e-mail? Fiz de tão bom grado e conciliei-me com essa nova geração do conhecimento. Passam tanto tempo sentados sobre o próprio rabo na tela do computador e, agora, quando a Morte envia-lhe um e-mail com seu parecer de trevas, ignora-me?”

Era uma voz rouca e cansada. Meu coração veio à boca, e ela salivava mentiras:

“Não. Por favor, foi sem querer... Eu não quis ofendê-la...”

“Tem sete horas, Abiezer Goulart. Em sete horas o excluirei deste mundo... Sete... Sete... Sete... Sete... Sete... Sete... Sete...”

Acordei ofegante, quase morri afogado em meu próprio sono. Ela viria, sim, ela viria! Eu não queria morrer... O que fazer? Não. Estava louco? Corri para a tela do computador. Adentrei meu e-mail e lá estava outra mensagem da Morte com o assunto “É chegada sua hora: sete horas”. Abria-a. Li: “Prezado Abiezer Goulart, em sete horas visitarei sua...” Maldição! Era a mesma mensagem.

Pensei em excluí-la. Deveria? O que aconteceria? Seria meu sonho obra do acaso, vínculo e consequência de um ser sem face que me maltratava no escuro? Não pensei mais, excluí aquele e-mail. Fui checar se o outro que acabara de excluir antes de dormir ainda estava para ser totalmente eliminado. Não. Assim como não havia nada na pasta de excluídos, também nada havia na paste de lixo eletrônico.

Céus! Um novo e-mail... O mesmo e-mail! Diabos estão presentes e brincando com minha alma em um purgatório de mentiras! Deletei-o novamente. Nada em lugar nenhum. Surgiu outro... E mais outro e-mail em minha caixa de entrada. Inferno! Estaria meu computador com defeito? Não. Minha internet? Também não.

Demorei a crer no que via e sentia. O mundo, aos poucos, tornava-se opaco e cinza. Tirei meus óculos de grau, sou míope, para limpá-los, mas de nada adiantou. Ainda estava me sentindo envelhecido, os objetos me eram indiferentes, sentia-me vagando por dentro de meu corpo em uma sonolência sem fim. Não mais me identificava como sendo corpo, mas sou dentro do corpo. Sou algo, alguém, talvez uma consciência, ou talvez uma centelha divina que habita dentro de um corpo... Centelha divina? Esses pensamentos não eram meus. Não poderia crer que brotavam de minha mente.

Tinha sete horas para descobrir quem era o farsante travestido de Morte, não queria, por uma razão desconhecida, esperar essa hora chegar. Não sei quanto tempo passei em frente ao computador pensando nessas coisas. Mas amanheceu, não tinha vontade nenhuma de trabalhar, nem de ir aos meus estudos, muito menos de me socializar com os infelizes que me cercam no decorrer do dia. Decidi ficar em casa, afinal, tinha que resolver aquilo... Mas senti fome, então fui ao supermercado. Foi quando aconteceu.

Já disse que minha visão se tornava falha, sim, mas quando saí de casa e fui tocado pelos raios de sol, meus olhos arderam. Minha visão tornou-se turva e evoluiu até alcançar o preto-e-branco. O mundo de cores não mais existia para mim. Senti nojo pelas pessoas, tinha vontade de livrar-me delas.

Cheguei à padaria e pedi uns biscoitos. O estúpido do atendente não me ouviu, eu, sem paciência para lidar com humanos, gritei: “Rapaz, dá para ser ou está difícil?” Nem assim me notou. Bati minha mão com força sobre o balcão, olhando o rapaz no olho. E bati novamente, mais uma vez... Ele nem sequer me viu. Não poderia, eu aos poucos deixava de existir. Olhei para minhas mãos e elas começavam a ficar transparentes. Bati mais uma vez sobre o balcão, mas bati de medo, de pavor, não de raiva. Nada escutei. Tentei tocar o infeliz do atendente e, juro, minha mão o atravessou a cabeça! Ele tremeu como se sentisse frio. Eu realmente me sentia frio, o sangue estancava-se nas partes inferiores de meu corpo. O coração batia em intervalos cada vez menores, mas ainda batia. Foi quando tive um estalo do pensamento! Vou enganá-la, sim, a senhora Morte e seu véu de viúva, vou persuadi-la... Não. Melhor, vou livrar-me dela. Tenho uma ideia em mente e muita coragem fundida ao desespero no peito. De sobra, perdi o resto de minha sanidade.

Voltei para casa, nem abri a porta, a atravessei. Quase não sentia mais meu coração, apenas um peso sobre o peito, como se carregasse um carrasco macabro que, em questão de segundos, aumentava seu próprio peso. Não senti mais medo, ele não mais existia, nada mais existia dentro de mim. Fui em direção ao meu computador, tinha que tocá-lo. Respirei fundo e percebi que o ar não me pertencia.

Concentrei o restígio de existência nas pontas transparentes de meus dedos. Não sei se os tornei rosados como eram, mas consegui tocar o teclado ao ponto de abrir uma página da internet. Restava-me pouco tempo, abri meu e-mail, cerca de duzentas novas notificações haviam chegado. E o número ainda aumentava. Desespero. Sentia a vida partindo de dentro de mim. Abri meu Orkut, sim, ainda tinha tempo, mas era pouco. Abri minhas configurações, li a palavra “geral” seguida de “notificações”, sim, é aqui mesmo. Logo abaixo da palavra “geral” estava escrito: “excluir minha conta do Orkut”. Cliquei! E fiz! Matei-me para o mundo virtual, pronto, bem na sua cara! E antes de você, Senhora Morte! Suicídio virtual! Venci...

...

2 comentários:

Anônimo disse...

Detona tudo, primo.

João Paulo disse...

Nossa...

dá pra entender o porquê do quinto lugar.